sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O que te dói? - O mal da humanidade e os medicamentos

Li esta semana uma interessante entrevista concedida por Miguel Chalub à Revista Isto É. Ele falou sobre as muitas dores e dificuldades de ser humano, em sua condição de fragilidade e impotência diante de determinadas situações e de como negamos nossas dores, amortecendo-as com antidepressivos, ansiolíticos ou mesmo comida.
Somos testemunhas e atores de um tempo em que não se pode ser frágil - não por responsabilidade própria. Toda e qualquer fragilidade é culpa do Outro, seja lá quem for o outro. Nem mesmo nossa saúde é de nossa responsabilidade: "O médico me mandou tomar estes remédios", "o médico marcou minha cirurgia para quinta", "o médico me disse que preciso fazer cesárea"... E assim nos poupamos os fracassos, as frustrações, os riscos de assumir as rédeas da vida.
Desde a mais tenra idade, ensinamos à nossas crianças como se portar: bebês de 5 meses vão para o berçário, onde passam grande parte do tempo sentados em fila, presos às suas cadeirinhas musicais auto-balançantes, segurando - quando podem - suas mamadeiras cheias de leite artificial. Estamos dizendo à essas crianças que elas devem ficar quietas, ignorar suas necessidades de contato e aconchego e contentar-se com seus substitutos sintéticos.

‎"Quando um recém nascido aprende em um berçário que é inútil gritar... Está sofrendo sua primeira experiência de submissão e abandono." Michel Odent

A "política de boa educação" continua na infância e adolescência, quando os diagnosticados com TDAH são medicados para "pararem quietos", para tornarem-se socialmente adaptados... Não é de se admirar que hoje mulheres não consigam parir, não se permitam passar pelo espelho do auto-conhecimento para se reconhecerem mães... Os homens também têm suas dificuldades de relacionamento, buscando os mais superficiais, que oferecem menos risco de exposição. É uma sociedade doente, que aprendeu a engolir seus problemas, mas não pode digeri-los e assim, busca nas FLUOXETINAS da vida o remédio para suas dores.
Transcrevo abaixo alguns trechos da entrevista de Miguel Chalub, que pode ser lida na íntegra aqui.



ISTOÉ - Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?
MIGUEL CHALUB - Porque estão sendo computadas situações humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais ficar entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado em depressão. É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É transformar um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das situações, numa entidade patológica.

ISTOÉ - Por que isso aconteceu?
MIGUEL CHALUB - A palavra depressão passou a ter dois sentidos. Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a pessoa estava triste, mas com uma tristeza profunda, vivida no corpo. A própria postura mostrava isso. Ela não ficava ereta, como se tivesse um peso sobre as costas. E havia também os sintomas físicos. O aparelho digestivo não funcionava bem, a pele ficava mais espessa. Mas, nos últimos anos, a palavra depressão começou a ser usada para designar um estado humano normal, o da tristeza. Há situações em que, se não ficarmos tristes,  é um problema – como quando se perde um ente querido. Mas o homem não aceita mais sentir coisas que são humanas, como a tristeza.

ISTOÉ - A que se deve essa mudança?
MIGUEL CHALUB - Primeiro, a uma busca pela felicidade. Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque, aí, justifica: “Eu não sou feliz porque estou doente, não porque fiz opções erradas.” Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo, à tendência de achar que o remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.

ISTOÉ - Ainda há preconceito com quem tem depressão?
MIGUEL CHALUB - Não. É o contrário. A vulgarização da depressão diminuiu o preconceito, mas criou outro problema, que é essa doença inexistente. Antes, a pessoa com depressão era vista como fraca. Hoje, as pessoas dizem que estão deprimidas com a maior naturalidade. Não se fica mais triste. Se brigar com o marido, se sair do emprego, qualquer motivo é válido para se dizer deprimido. Pode até ser que alguém fique realmente com depressão, mas, em geral, fica-se triste. O sofrimento não significa depressão. E não justifica o uso de medicamentos.

ISTOÉ - Os médicos não deveriam entender este processo?
MIGUEL CHALUB - Os médicos não estão isentos da ideologia vigente. O que acontece é: você vem ao meu consultório. Eu acho que você não está deprimido, que está só passando por uma situação difícil. Então, proponho que você faça um acompanhamento psicoterápico. Você não fica satisfeito e procura outro médico, que receita um antidepressivo. Ele é o moderno, eu sou o bobão. Para não ser o bobão, eu receito um antidepressivo logo. É uma coisa inconsciente.

ISTOÉ - Inconsciente?
MIGUEL CHALUB - Os médicos querem corresponder à demanda. Senão, o paciente sairá achando que não foi bem atendido. Receitando um antidepressivo, eles correspondem à demanda, porque a pessoa quer ser enquadrada como deprimida. Mas há a questão dos laboratórios. Eles bombardeiam os médicos.

ISTOÉ - A ponto de influenciar o comportamento deles?
MIGUEL CHALUB - Se for um médico com boa formação em psiquiatria, mesmo que não seja psiquiatra, ele saberá rejeitar isso, mas outros não conseguem. Eles se baseiam nos folhetos do laboratório. Não é por má-fé. Os laboratórios proporcionam muitas coisas. Pagam passagens, almoços, dão brindes. O médico, sem perceber, começa a fazer o jogo. Porque me pagaram uma passagem aérea ou me deram um laptop, acabo receitando o que eles estão querendo.

ISTOÉ - O médico se vende?
MIGUEL CHALUB - Sim. Por isso é que há uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibindo os laboratórios de dar brindes aos médicos. Nenhum laboratório suborna médico, não que eu saiba, nem vai chegar aqui e dizer: “Se você receitar meu remédio, vou lhe dar uma mensalidade.” Mas eles fazem esse tipo de coisa, que é subliminar. O médico acaba tão envolvido quanto se estivesse recebendo um suborno realmente.

ISTOÉ - Esse lobby é capaz de fazer um médico receitar certo remédio?
MIGUEL CHALUB - Aí é a demanda e a lei do menor esforço. Se o paciente chegar se queixando de insônia, por exemplo, o que o médico deveria fazer era ensiná-lo como dormir. Ou seja, aconselhar a tomar um banho morno, um copo de leite morno, por exemplo. Mas é mais fácil, tanto para o paciente quanto para o médico, receitar um remédio para dormir.

ISTOÉ - O que causa a depressão?
MIGUEL CHALUB - Esse é um dos grandes mistérios da medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é conhecido, está ligado a uma substância chamada serotonina, mas o que o desencadeia, não sabemos. Há teorias, ligadas à infância, a perdas muito precoces, verdadeiras ou até imaginárias – como a criança que fica aterrorizada achando que vai perder os pais. As raízes da depressão estão na infância. Os acontecimentos atuais não levam à depressão verdadeira, só muito raramente. Justamente o contrário do que se imagina. Mas mexer na infância é muito doloroso. Não tem remédio para isso. Precisa de terapia, de análise, mas as pessoas não querem fazer, não querem mexer nas feridas. Então é melhor colocar um esparadrapo, para não ficar doendo, e pronto. É a solução mais fácil.

ISTOÉ - Há quem diga que hoje a moda é ter um psiquiatra, não um analista. O que sr. acha disso?
MIGUEL CHALUB - As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o isolamento. Não buscar psiquiatras e remédios. Em algum momento, isso pode ficar tão sério, tão agudo, que a pessoa pode  precisar de uma ajuda, mas para que a ensinem a enfrentar a situação. Ensina-me a viver, como no filme. Não é me dar pílulas, para eu ficar amortecido.

ISTOÉ - O que é felicidade para o sr.?
MIGUEL CHALUB - A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa: a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a definição de felicidade, não de saúde. Felicidade, para mim, é estar bem consigo mesmo e com o outro. Estar bem consigo mesmo é também aceitar limitações, sofrimento, incompetências, fracassos. Ou seja, felicidade também é ficar triste de vez em quando.


Originalmente publicado em N° Edição:  2115 |  21.Mai.10 - 21:00 |  Atualizado em 30.Set.11 - 14:24

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Biografia

2008 - Conclui a faculdade de Naturoterapia - Enfase em Terapias Orientais; aperfeiçoamentos em Auriculoterapia e Acupuntura Abdominal (UNIBEM-PR) e o Programa Internacional de Educação de Florais de Bach (Instituto Dr Edward Bach). Neste mesmo ano, pude desenvolver as habilidades em Fitoterapia trabalhando na Chá & Arte Ervanário, além projetos paralelos de Massoterapia e Florais.

2009 - Animei oficinas de Shantala e Reflexologia no Espaço Aoba (Curitiba/PR), onde estive até o encerramento das atividades. Fundei a marca e a loja virtual Aho Ervas.

2010 - Participei do Workshop “Nascimento: da fisiologia à prática”, com o obstetra francês Michel Odent e do Encontro "Toda gravidez é sinal de saúde" com a parteira holandesa Mary Zwart. Neste ano, trouxe ao mundo meu 2o filho, num lindo e transformador parto domiciliar.

2011 - Em passagem por Buenos Aires, tornei-me mestra em Magnified Healing. De volta a Curitiba, participei da 1a turma de Formação Profissional em Parto Ativo com Janet Balaskas no Brasil, um privilégio e grande honra, visto que Janet é precursora do Parto Ativo, autora do livro homônimo e fundadora do Active Birth. Iniciei meus estudos em Aromatologia Aplicada à Saúde com Fabian Laszlo. Retornando a Buenos Aires, conheci Alimentação Viva, participando de oficinas com a mestra internacional Gae Arlia.

2012 - Mudei-me para Natal/RN e passei a coordenar as atividades da Casa Aho; conclui a Capacitação em Atenção ao Parto Domiciliar (Recife-PE), curso pioneiro no Brasil.

2013 - Conclui a Formação em Constelação Familiar com Efu Nyaki.

2014 - Tornei-me parte do corpo docente da Capacitação em Parteria Urbana (Cefapp/PE) e da Formação de Doulas Comunitárias (Natal/RN). Fiz curso de Aperfeiçoamento em Yoga para Gestantes.

2015 - Conclui a Formação Profissional em Aromaterapia pela Terra Flor. Iniciei o ciclo de encontros de gestantes da Casa Kids.

2016 - Retomei a Graduação em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN e iniciei a Pós-Graduação em Terapia Vibracional Quântica.

Entre em contato pelo email nicnunes@gmail.com e conheça meu trabalho.